HOMENAGEM AO ROMULO

TITO (71-311 · 77- 098)

 

Minha vivência com o Romulo não se iniciou na cidade em que moravamos, Fortaleza, a terra do sol. Mas em Barbacena-MG.

Em 1970, prestava concurso para Escola Preparatória de Cadetes do Ar, juntamente com outros companheiros. Entre os aprovados, que me vem à lembrança, estava o Romulo, o Audálio, o Aldo, o Bevilaqua, o Luiz, o Medeiros... Passamos a etapa seguinte, exames médicos preliminares e teste físico. Vencida a etapa, aguardamos instruções para seguir para o Rio de Janeiro onde iriamos fazer o exame medico final.

Marcado o dia do embarque, nossas famílias apresentavam seus filhos no aeroporto para seguir viagem, com escalas em Recife e Salvador. As famílias estavam felizes, mas saudosas, especialmente as mães que choravam muito pela partida dos filhos. Estes, orgulhosos pela conquista, até então, iriam à busca de um ideal muito desejado.

Embarque concluído, todos sentados no C-47, ao iniciar a partida começou o nosso calvário. Percebemos que uma das hélices não girava o que iria levar o horário da decolagem para bem mais tarde. Depois de muito mexe e remexe, finalmente, a aeronave decolou com o destino a Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Chegamos ao amanhecer, o voo transcorreu normalmente, apesar do frio intenso que sentíamos durante a madrugada.

Inicialmente, nos alojaram no dormitório para soldados. Posteriormente, levaram os candidatos para o café da manhã, e após ouvirmos algumas instruções fomos dispensados.

As condições de hospedagem não eram das melhores, quando então o Luis resolveu ir para casa do tio. Perguntou se eu queria ir, uma vez que minha tia morava a uma quadra do edifício onde ele iria ficar. Era época de carnaval, portanto tínhamos alguns dias de espera até iniciar o exame medico final. O Romulo também foi para casa do tio, e Dona Iraídes, mãe do Romulo, não esperou o tempo passar, embarcou em um avião que a levaria, juntamente com o seu Remo, para o Rio de Janeiro. Lá poderia permanecer um pouco mais com o seu jovem filho. Alegria para Sra. Iraídes, SORTE MINHA...

Chegou à data da apresentação dos aprovados. O ginásio, da outrora Escola de Aeronáutica, estava repleto de familiares e futuros alunos. Na parede adjacente ao segundo piso podíamos ler uma frese em Latim: “Mens sana in corpore sano”. Sobre o piso, e abaixo da frase, alguns oficiais faziam a última verificação na lista de aprovados para matrícula. Terminada a verificação, passaram a dar instruções do embarque a ser seguido de acordo com a ordem de chamada.

Na medida em que os “meninos” iam sendo chamados à choradeira aumentava. Chegou à vez do Romulo, Sra. Iraídes em prantos, seu Remo de modo imparcial ficou até o embarque do filho, não sem antes lhe oferecer alguns sábios conselhos.

Um fato que agradeço muito e que aproximou nossas famílias foi à procura do Sr. Remo por mim. Ao encontrar-me disse – Aguardarei o seu embarque. Fiquei seguro, meu nome até então não havia sido chamado e o número de candidatos estava chegando ao fim.

Cessada a chamada restavam ainda alguns candidatos, entre eles, que eu posso lembrar, estava o Alírio, o Angelo e outros, acho que o número era de 11 aprovados. Seu Remo, ao meu lado, disse – filho você vai para Barbacena. Perguntei como eu poderia ir se não havia sido chamado. Conhecedor da vida, disse – você foi considerado apto em todos os exames. Em seguida me perguntou se eu tinha dinheiro para pagar a passagem, respondi que tinha um pouco de dinheiro, mas não sabia se daria para custear a minha passagem. Também disse a ele que não tinha a mínima ideia de como poderia chegar à Rodoviária.

De modo muito elegante, como eram os homens de antigamente, ordenou: Você vai na minha companhia e da Iraídes. Vou descer na rodoviária, irei comprar a sua passagem e vou levá-lo até o embarque no ônibus. Não se esqueça de que você passou em todos os exames. Eu nunca esqueci foi à atitude do Sr. Remo. Em fim, sou muito grato ao pai do Romulo por ter me ajudado, também, a chegar aonde eu cheguei. Deus o tenha no Céu.

A partir de 1971 minha amizade com o Romulo começou a se estreitar, juntamente com os demais aratacas, Aldo, Arlindo, Medeiros, Luis, Bevilaqua... Nesse período tivemos algumas dificuldades que nos faziam cada vez mais próximos e solidários, entre elas a de gozar as férias de julho em casa. Lembro-me que certa vez tínhamos conseguido embarcar num avião da Força Aérea. Ao chegar a Recife a aeronave apresentou problema. Não havendo condições de se resolver a falha mecânica, pois dependia de uma peça que estaria chegando do Rio de Janeiro, a aeronave teve que pernoitar.  Malas na cabeça, literalmente, nos dirigiram ao cassino (hotel de trânsito) para pernoitar. Lá no hotel nos informaram que não havia lugar. Solução, dormimos na sauna. Como todos os jovens, possuíamos um elevado espirito aventureiro, somado a disciplina e a organização que nos foram impostas até então.

Ano a ano, conseguimos superar as dificuldades de toda sorte. Assim, concluído o curso na Escola Preparatória de Cadetes, mais uma etapa de exames médicos teve inicio, e seria assim pelo tempo em que permanecêssemos na ativa.

Romulo tinha certo receito de ser reprovado no exame de vista, e isso continuou atormentá-lo por certo período. Uma vez ele havia comentado isso comigo, e eu disse a ele que tivesse fé, pois ele iria conquistar mais aquela etapa, e assim também foi feito.

No dia 12 de dezembro de 1977, depois de tantas apreensões, noites mal dormidas, madrugadas altas de estudos, conseguimos atingir o nosso sonho, havíamos sido declarados Aspirantes a Oficial Aviador.

Na época era comum todo “aspira” deixar o bigode crescer, ter um carro e uma arma. Nossos bigodes ainda não haviam crescido. Arma nem pensar, mas o carro... Ha! Esse sim, era imprescindível.

Romulo sonhava adquirir um Wolksvagem SP2, Campos já havia comprado, e eu também queria um. Anda pra lá, anda pra cá, acabamos encontrando dois SP2 em Pirassununga, e aí... negócios concluídos.

Passamos alguns dias em Pira... Combinamos que iríamos juntos de carro até Fortaleza. Foi uma memorável e agradável viagem, dois SP2 na ala, fazendo o trajeto Pirassununga – Fortaleza.

Passamos nossas férias juntos, e posteriormente nos apresentamos no CATRE, em Natal, onde iríamos realizar o Curso de Tática Aérea e definir as aviações que cada um iria cursar. Romulo escolheu asas rotativas. Naquele tempo se aproximou muito da Maria Alcina (Aquino) e do Mené (Menescal). Vivia na farra, até encontrar aquela que seria sua esposa, Ana Elizabeth. Adiantando um pouco o tempo, certa vez estava chegando na II FAE, quando encontrei o Romulo. Ele me chamou e me entregou uma folha de papel para ler. Ao terminar a leitura perguntei a quem aquilo estava endereçado, respondeu: a minha Elizabeth. Era um belíssimo poema. Fiquei tão encantado que disse a ele para aproveitar o dom e lançar um livro de poemas. Ele como sempre gozador disse: Será que eu tenho esse dom?

Retomando ao passado longínquo, posso afirmar que o Romulo foi um exemplo de aluno, de cadete e de oficial. Desde cedo demonstrava uma retidão de caráter muito acentuada. Alguns dos seus tios tinham sido militares do Exército, entre eles, o General de Exercito Carlos Alberto que lhe servia como farol a iluminar sua vontade de alcançar os seus objetivos.

Sua vida pessoal era dedicada inteiramente a Força Aérea, a família e aos estudos. Escrito nessa ordem por saber que sua família sempre o apoio no seu mais elevado ideal - a Força Aérea Brasileira.

Idealista por natureza e por ter herdado dos seus pais e tios excelentes exemplos de dignidade, respeito, coragem e lealdade, Romulo encarnou em corpo e alma a celebre frase de Siqueira Campos quando disse, ao sair do forte de Copacabana: “a Pátria tudo se dá, nada se pede nem mesmo compreensão”.

Sua esposa Ana Elizabeth, e suas filhas Maria Cecília, Maria Clara e Maria Beatriz foram a sua zelosa fonte de que na retaguarda o apoio estava garantido, deixando-o livre para o bom combate. Essa verdade, de que sua família sempre foi o seu apoio, foi mantida até os últimos dias da sua vida.

Meu Caro Amigo Romulo,

Você não só foi importante para a sua família e para sua Força Aérea Brasileira, mas também para os seus amigos, entre eles este que teve o raríssimo privilégio de conhecê-lo.

Seus exemplos de dignidade, respeito e amor a Força Aérea será certamente conduzido por todos aqueles que você comandou, pois um bom exemplo vale muito mais do que mil palavras.

Amigo sua missão findou-se com a sua vida, mas não os seus exemplos de Coragem, Dever, Honra e Lealdade.

Ao término da sua missão eu escutava uma música que me fez pensar muito em você. É uma música do Rappa que eu quero aproveitar e modificar a primeira estrofe, colocando o seu nome e encerrando esse singelo depoimento de uma pessoa que o conheceu e muito o admirou.

Em algum lugar, pra relaxar,

Lá o Romulo está pedindo pros anjos cantarem para ele.

Pra quem tem fé,

A vida nunca tem fim.